Discussões recentes sobre o infinito revelaram uma lacuna no meu imaginário sobre a natureza do lugar. Ou seja, para compreender o que não tem fim, é preciso primeiro definir o espaço das coisas. Este espaço é, na minha tese, definido pela jurisdição de um conceito. O espaço existe lá onde a regra, a lei e o conhecimento que o definem têm razão de existir. Fora do alcance do conceito, o espaço deixa de ser.
Aliás, nesta geometria, é bem importante distinguir o infinito do indefinido. Por mais que seja inalcançável, o infinito ainda pertence ao lugar. Ele é a extensão máxima da regra, um limite que pode ser tangenciado pelas mesmas leis que definem as coisas finitas. Já o indefinido está fora do espaço. É onde as regras não se aplicam e os conceitos perdem sua capacidade de explicar e, logo, sua razão de existir.
Este pensamento me foi aceso enquanto assistia a um vídeo do professor Ledo Vaccaro, onde ele define o espaço como "o lugar das formas". Ele cita uma obra de Cildo Meirelles que materializa esse conceito.
Nos anos 80, ao trabalhar sobre superfícies, Cildo propõe a série "Cantos". Para quem define a parede (o plano) como seu espaço de trabalho, o canto da sala é a interrupção do plano, o ponto onde a superfície vai tangencialmente desaparecer. Ali, o conceito de "parede" desaparece, mas o canto ainda pode ser tangenciado pelos mesmos princípios que regem a arte na parede. O canto é uma manifestação de um infinito palpável. Um exemplo de que não precisamos contar os grãos de areia em uma praia para compreender o que não tem fim, mas o infinito também existe na convergência para um ponto apenas.
Se aceitarmos que a forma, do ponto de vista geométrico, é o sentido que atribuímos à extensão (ou seja, um conceito), a conclusão é que o espaço é o lugar dos conceitos, e a geometria, em si, tenta entender as fronteiras da nossa capacidade de nomear o que vemos.
Neste momento, me senti estranhamente familiar com essa ideia. Com o questionamento de como o conceito habita o espaço, ou mais, como ele o define. Buscando na minha história e pesquisando sobre o autor, me deparei com a foto abaixo que tirei em 2017, se não me engano. É de uma instalação no Instituto Inhotim, e a obra se chama "Desvio para o Vermelho".
Esta obra evoca um conceito da física contemporânea (o redshift ou desvio para o vermelho) que descreve a expansão do universo. Cildo satura o ambiente com uma única cor, transformando o conceito em matéria. Ao entrar na sala, o espectador percebe que o vermelho não está no espaço. O vermelho é o espaço.
Aliás, seja por outros autores, ou qualquer tentativa minha de descrever este conceito, é impossível que isto seja feito sem usar, de forma repetida, a palavra espaço. Eu digo que, mais do que ninguém, Cildo compreende muito bem o que é o espaço: a própria substância do conceito em expansão.
