A busca pela ancestralidade é um exercício de olhar para o que fomos para entender o que eu sou. Ao observar fotos antigas de pais e avós, o "eu" se dissolve em um "nós" coletivo. Para quem é brasileiro, essa escavação é sempre delicada; é tatear fragmentos de identidades moldadas por forças que os próprios protagonistas não compreendiam.
Meus antepassados vieram para cá movidos por uma ideia romântica, a promessa de um Eldorado que servia de fuga para uma Europa onde a Revolução Industrial esmagava o pequeno produtor. Chegaram a um Brasil que os desejava não apenas como braços para a agricultura, mas como parte de um projeto de estado: o esbranqueamento de uma nação que temia, pela sua própria hegemonia, a liberdade dos negros após a abolição. E, bom, não podemos dizer que, por enquanto, o plano não tenha dado certo.
O reverso dessa medalha foi o isolamento. Fomos jogados nas colônias para viver uma vida de brancos pobres e camponeses analfabetos, alheios à macropolítica que nos usava como peças de tabuleiro. Enquanto a elite nos vendia como prova de uma suposta superioridade europeia, nossa realidade era de pés descalços e uma visão localíssima de mundo. Éramos o projeto de uma Europa que já não nos queria, em um país que nos valorizava pela cor da pele enquanto ignorava se passávamos frio, calor, fome ou solidão.
Essa é a encruzilhada que a foto do meu pai, em Santa Emília na década de 1960, revela. De um lado, o privilégio implícito de uma origem europeia em um país racista; de outro, a humildade de quem é a base trabalhadora, o colono que nunca viu o "velho mundo" e que foi forjado na lida bruta da terra.
Reconhecer essa história é entender que não somos apenas descendentes de imigrantes; somos, sobretudo, latino-americanos. No fim da linha, o que resta não é o brilho de uma Europa distante, mas a solidez de pessoas que, entre a ignorância e a sobrevivência, fincaram raízes em um solo que não era seu, mas que se tornou o único chão possível para os seus passos.
