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O peso da perenidade

O essencial começa em frases curtas. Responder "por que você está aqui?" ou "o que você quer?" exige uma clareza que não admite rodeios ou manipulações. Essas frases axiomáticas compõem as raízes simples que sustentam tudo o que vem acima. Sem um ponto de apoio inegociável, qualquer construção posterior é apenas uma forma de agressão, de egoísmo ou de futilidade.

No entanto, uma raiz nunca sobrevive só. O pensamento não é uma estaca isolada, mas uma rede que se forma sob a terra e conecta áreas que o senso comum insiste em separar. No meu mundo, as raízes do capital, do afeto e do prazer têm a ver umas com as outras. Se as minhas decisões contradizem a minha ética pessoal, ou se a minha busca pelo belo ignora os meus valores fundamentais, eu não tenho um sistema; tenho apenas um amontoado de conceitos em conflito.

Quando as raízes estão entrelaçadas, elas criam uma base capaz de sustentar o peso da realidade. A maior parte das estruturas é frágil. E como gostamos da destruição! Ter raízes fortes te faz resistente, mas será que isto é uma vida feliz?

É contra essa resistência que os fatos e as evidências entram no jogo: eles não são o fundamento, mas o fruto. Se o meu modo de me estruturar é coerente com o meu modo de amar e de observar a arte, o resultado é uma solidez que o mercado ou as crises quotidianas não conseguem abalar. Isso se paga no futuro, nos torna perenes e convictos, mas nem sempre garante um presente pleno. Quem sabe voar com o vento não possa ser mais prazeroso, apesar de fatal?

A vantagem é que, quando a fundação é sólida, as justificativas surgem sem esforço. A vida torna-se fluida e as decisões, orgânicas. O diálogo com o outro deixa de ser um campo de batalha para se tornar uma troca, porque quem conhece a própria profundidade não precisa gritar para se fazer notar. A agressividade é, quase sempre, o sintoma clínico de uma raiz fraca. A solidez da ideia, e da vida construída sobre ela, é o que garante a paz do diálogo e o prazer do silêncio.