← Voltar aos Rascunhos

O valor de uso

Nosso mundo está morrendo. O planeta Terra. Embora romântica, esta afirmação soa estranhamente contraditória diante da inércia social da nossa vida quotidiana. Enquanto os ciclos biológicos se desgastam em silêncio, eu sinto que ainda há muito a conquistar e viver. Não falo de cruzar oceanos e gerar, em um voo, o carbono que um local levaria dez anos para emitir, mas da reterritorialização do meu próprio mundo: conhecer os vizinhos, celebrar o bairro, redescobrir minha cultura e revelar meu potencial.

Mas como conciliar essa percepção de morte iminente com a engrenagem de uma sociedade falida?

O diagnóstico de falência sistêmica não é novo; autores o repetem há gerações. No âmbito profissional, seguimos o script: cada um tenta dar o seu melhor, gerar lucro, erguer seu comércio ou empresa. Somos indivíduos movidos por convicções distintas, tentando empurrar a comunidade adiante. No entanto, no meu entorno, a sensação é de uma entropia crescente. A organização social parece ruir e se despedaçar, como uma estrutura antiga que clama por reforma, demolição ou limpeza. E o lixo acumulado… bem, nem sei dizer.

Na visão de quem observa com certo estudo, percebo que todos ao redor aspiram ao topo, no fenômeno clássico de muitos caciques para poucos índios. A regra agora é a performance líquida, medida em dólares ou euros. O sucesso virou o ato de gerir o maior orçamento possível, performar em lives e acumular influência. No fim, tentamos ser grandes líderes de um sistema que, estruturalmente, já não suporta o peso da nossa própria ambição.

Diante deste entorno que desaba, a saída não parece ser a fuga para o abstrato e para o grandioso, mas um movimento de volta: a reterritorialização. Se o mundo globalizado nos desconectou da terra e do outro, o ato de conhecer o vizinho é uma forma de fincar raízes em um solo que ainda pulsa. É entender que a vida não acontece no gráfico de emissões globais, mas no território onde a nossa presença é real e sentida.

Essa mudança de olhar evoca uma ecologia profunda, onde o potencial que busco revelar em mim não está separado da saúde do meu bairro. Não se trata de salvar uma ideia abstrata de "Natureza", mas de cultivar o amor pelo que é próximo. Quando descubro minha própria cultura e festejo na minha rua, deixo de ser um espectador da falência sistêmica para me tornar um guardião do meu lugar. O planeta deixa de ser um paciente terminal e volta a ser o chão que sustenta meus passos.

É nesse encontro que abandonamos a lógica do acúmulo para abraçar a comunalidade. No buen vivir, o sucesso não é uma linha ascendente e solitária, mas a harmonia da festa compartilhada. Se a organização macro está ruindo, a resposta está na reconstrução das redes de apoio que o mercado esqueceu de valorizar.

No entanto, essa busca pelo que é próximo esbarra em uma cobrança implacável: a ditadura da verticalidade. Enquanto tento fincar raízes, o entorno exige que eu escale. À minha volta, o sucesso é uma coreografia de "caciques" que medem a vida por performance líquida, convertendo potencial humano em dólares, euros ou alcance digital. É a fetichização da métrica: se não puder ser quantificado em um gráfico ou exibido em uma live, o trabalho parece não existir.

Essa exigência gera um curto-circuito. Como posso me "valorizar" em um sistema que só reconhece o valor de troca e ignora o valor de uso? A maior parte do que faço, o sentido que crio e a rede que teço, simplesmente não faz sentido para a lógica do grande budget. Exigir que um profissional meça sua eficácia pela régua de uma sociedade falida é pedir que ele ajude a decorar os corredores de um projeto já condenado.

Valorizar-se, neste contexto, significa aceitar que o valor gerado na comunalidade e na cultura local é invisível para quem só olha para o topo. Não é que o que eu faço não tenha valor; é que a moeda do sistema está desvalorizada demais para pagar pelo que é essencial. Talvez o mundo não esteja morrendo e, apesar de trágico, o desmoronamento não seja letal. De qualquer forma, minha tarefa não é salvar a estrutura, mas garantir que, quando o último cacique perder o sinal da sua live, ainda restem vizinhos, uma rua e quem possa ajudar a varrer e pensar no que fazer com os entulhos.