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Manifesto anti-quântico

Apesar de não intencional, a criptografia de chave pública foi muito mais do que um avanço técnico para a viabilização da internet: ela acabou sendo a maior transferência de poder da história recente.

Pela primeira vez, a matemática deu ao indivíduo comum um escudo que nenhum exército, agência de inteligência ou Estado poderia transpor por força bruta. Essa criptografia de guerrilha é o que permite que a democracia respire em ambientes de vigilância, garantindo que a comunicação e a posse de ativos não dependam da permissão de um suserano. Para o bem ou para o mal, no Brasil recente, vimos como a integridade da informação é a última linha de defesa contra o arbítrio do Estado, podendo até ser utilizada para organizar um golpe contra nossa própria democracia.

Pessoalmente, tive contato com a criptografia e seu maior guardião (os números primos muito grandes) bastante cedo. É fascinante que, utilizando a computação binária, mesmo o mais potente dos computadores levaria mais do que a própria idade do universo para quebrar uma chave de 2048 bits, dada a complexidade exponencial do problema.

Contudo, aprendemos logo em seguida que tudo isso pode mudar com a computação quântica: com essa tecnologia, a interferência de fase (algoritmo de Shor) consegue realizar a fatoração de números primos gigantes em tempo polinomial. Isso é quase instantâneo. Questão de segundos. Nada mais de "idade do universo".

O Gartner Hype Cycle de 2016. A computação quântica aparece no Innovation Trigger com um tempo de maturação de mais de 10 anos.

Ou seja, com o investimento contínuo e recente em computadores quânticos, nosso escudo está prestes a ser derretido pelos avanços prometidos. E, com isto, vai também nossa liberdade, já que, ao contrário do PC ou do smartphone, o computador quântico é intrinsecamente centralizador. Devido às restrições físicas de criogenia e escala, ele jamais será miniaturizado para caber na sua casa ou no seu bolso. Ele é, por definição, uma tecnologia de nuvem, controlada por um punhado de organizações que detêm o capital para manter essas máquinas operando perto do zero absoluto.

Mas o que estes computadores oferecem à população em troca dessa rendição total da nossa privacidade e do poder de nos organizar politicamente através da internet?

A promessa é de uma produtividade milagrosa: simulações de fertilizantes mais eficientes, novos materiais e curas farmacêuticas... Mas se a descoberta nasce de um processamento que você não pode replicar, verificar ou possuir, ela não é um ganho para a humanidade; é um novo mecanismo de dependência, de maximização dos ganhos e de acentuação das desigualdades tecnológicas. A autonomia do agricultor ou do paciente desaparece quando o código-fonte da matéria se torna propriedade privada inatingível de quem aluga o tempo de QPU.

Ainda sobre a dependência de grandes corporações, hoje em dia, o pequeno produtor já é refém de sementes estéreis para sua produção, as quais ele deve, ano após ano, comprar de novo do seu fornecedor, já que não consegue reproduzi-las em sua propriedade. Da mesma forma, populações inteiras são usadas como cobaias de remédios. Imagine agora isto, mas muito, mas muito, potencializado.

No fim das contas, a computação quântica não entrega nada à população. Ela retira a principal ferramenta real de defesa que tínhamos, a invulnerabilidade matemática, e nos devolve promessas de eficiência que apenas otimizam a extração de lucro pelos detentores dos meios de produção, como de costume. É um desarmamento unilateral disfarçado de progresso. Sem a criptografia de grandes primos, voltamos ao estado de nudez total perante o poder, enquanto o poder se torna mais opaco e eficiente do que nunca. Não há bônus, apenas o ônus de sermos processados por uma máquina que nunca poderemos ter.