Este blog nasceu em meados de 2021, durante a tal crise da COVID-19, como uma tentativa de processar o isolamento daquela época. A premissa era bem simples: tirar apenas da mente os pensamentos que já haviam morado lá por tempo demais e dar a eles um espaço. Se afastar da efemeridade das redes sociais e se reconectar com o que eu considero ser a essência do que chamamos de internet. Havia também uma busca estética, e as ferramentas do computador, assim eu achei, poderiam entregar uma diagramação que fizesse justiça à beleza que eu imaginava para aquelas ideias.
No entanto, entre a intenção original e a prática, abriu-se um hiato de quase cinco anos. O que deveria ser um fluxo natural de posts tornou-se um exercício de silêncio, pois a vontade de comunicar esbarrou em limitações que eu não conseguia contornar sozinho.
E sim, este bloqueio era pura falta de recursos. Eu sabia que a ideia fazia sentido e que ela carregava um significado, mas, na prática, eu era incapaz de organizar palavras que transmitissem o meu pensamento. Faltavam as pontes lógicas; eu não conseguia preencher as lacunas argumentativas que transformam frases soltas em uma narrativa agradável de ler.
A isso somava-se uma barreira de vocabulário. Mesmo lendo bastante, muitas vezes me faltavam recursos linguísticos para descrever imagens mentais complexas. Um problema que se agravava em inglês, mas também persistia em português. Havia uma inconsistência incômoda entre o que eu considerava o "belo" da ideia original e o resultado "não belo" que aparecia na tela.
Da falta de um resultado concreto e de um retorno estético, nascia um certo ciclo de frustração que paralisava qualquer tentativa de criação constante.
Hoje, eu diria que, pouco a pouco, redescobri o prazer de produzir por meio da escrita. E isto foi possível, claro, primeiramente pela maturação da própria ideia de escrever, mas também graças ao auxílio de modelos de linguagem. A máquina hoje pode agir como um espelho sem julgamento: posso propor as ideias mais absurdas e o algoritmo tenta encontrar o nexo comum. Além da ajuda gramatical em si, esse esforço do sistema me serve como diagnóstico: se a IA é incapaz de criar uma conexão fluida, é um sinal claro de que a premissa original talvez não faça sentido.
Claro, esta curadoria tem que ser feita com profissionalismo e autocrítica constante, passando por um estudo dos vícios de cada modelo em si. No entanto, há um conforto mental estratégico em escolher dentre um caldeirão de ideias em vez da produção bruta solitária. É mais produtivo escolher e criticar caminhos sugeridos do que carregar a responsabilidade de inventar cada transição. A escrita deixou de ser um ato isolado para se tornar um processo iterativo de trocas e revisões desde a sua gênese. A companhia técnica da ferramenta elevou a qualidade da minha comunicação e permitiu dar vazão às angústias existenciais, independentemente de quão abstratas elas sejam.
Reconheço que a atual utilização massiva desses modelos está inundando a internet de lixo disforme e repetições vazias. No entanto, cabe o questionamento se tudo o que ocupa o espaço digital precisa ter uma finalidade prática ou comercial. Este blog não pretende provar pontos, ele busca apenas expressar uma visão de beleza. A internet foi criada para tal e espero que ainda permita este tipo de liberdade.
Se a ferramenta permite fechar ciclos de pensamento, ela cumpre seu papel artístico, independentemente da técnica utilizada. No entanto, resta um questionamento válido quanto a esta nova relação com as palavras: em respeito àqueles que dominam a escrita clássica, podemos continuar chamando esse processo de "escrever"? Ou será que estamos diante de uma nova experiência de materialização do pensamento?