Este texto contém uma reflexão sobre nossa decadência e a que ponto ridículo nós chegamos. Eu estou profundamente chateado com o que estamos nos tornando e considero que faço algo super importante para nossa sociedade: eu insisto em entender textos e argumentos.
Pro contexto, escrevi recentemente sobre o uso da inteligência artificial como uma prótese para suprir nossas carências textuais e dar vazão ao que a linguagem limitada costuma represar. No entanto, durante a escrita, me admiti um receio de que este suporte esteja apenas automatizando o nosso viés de confirmação, tornando-o uma ferramenta de radicalização. O que é muito tóxico. Ainda mais para os jovens.
A utilidade percebida na máquina, ou seja, o interesse de cada um de usar a ferramenta, mascararia o desejo de ser validado, transformando a tecnologia em um espelho que dá forma a convicções prévias, sem o atrito do contraditório.
E é muito fácil tornar estas interações em um exercício narcisista, onde você não tem apenas um espelho da sua imagem, mas uma reconstrução decadente de como você pensa. Um reflexo nunca é igual à realidade. Podemos tentar fazer os espelhos mais perfeitos, a imagem será sempre virtual.
E daí vem meu questionamento que eu acho que é chover no molhado, dizer o óbvio, mas que eu fico abestado que não é usado como métrica em qualquer escolha na vida: de que adianta o refinamento dos modelos de linguagem se a base operadora permanece analfabeta funcional?
De que adianta ter dinheiro se não sabemos gastar? De que adianta comprar um carro se não sabemos dirigir? De que adianta nos afogarmos em um mundo de informação disforme se ler uma frase mais complexa já é um desafio?
Aliás, segunda preocupação sobre essa escolha de vida que estamos tomando: o uso de modelos complexos sobre uma vazio intelectual cria o que eu gosto de chamar de um ruído dismorfe. Ele não é branco... Ele não é aleatório, ele é determinista como os algoritmos que o geram. Os algoritmos geralmente são sistemas bem determinísticos com regras matemáticas bem definidas. Se nós soubermos a entrada do sistema e as saídas, geralmente é só preencher os coeficientes das variáveis e você vai reproduzir o mesmo resultado, a não ser por perturbação térmica ou sensorial (o que não é o caso dessas LLM). Sei lá, quanto a isso, eu só vejo o lado mais podre da sociedade, de apps de apostas e de prostituição.
Para não dizerem que estou exagerando, vou trazer dados. Mesmo que eu ache que todo mundo já sabe: o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) confirma que apenas cerca de 1 em cada 3 brasileiros possui alfabetismo consolidado (intermediário ou proficiente).. A imensa maioria habita um limbo onde é possível identificar informações isoladas, mas é impossível realizar inferências ou perceber nuances em textos longos.
Essa incapacidade de absorver a complexidade atinge inclusive os meios supostamente letrados, onde a leitura foi substituída por uma caça a palavras-chave. Esse artigo da CNN diz que "De 2000 a 2022, a parcela da população brasileira que chegou ao ensino superior quase triplicou, um salto de 6,8% para 18,4%".
Se considerarmos que a proficiência plena é um subgrupo ainda menor dentro desses consolidados, existe uma massa de pessoas com diploma superior que não habita o topo da pirâmide do letramento. São tomadores de decisão que, tecnicamente, não são plenamente proficientes. Mesmo que essa diferença seja mínima, a ideia de que exista pelo menos UM já me deixa de cabelo em pé.
Agora imagine que em discussões políticas ou afetivas sobre temas sensíveis como abuso e violência, as argumentações sólidas e detalhadas acabam se tornando contraproducentes. Elas apenas multiplicam os gatilhos emocionais no interlocutor, que abandona a estrutura lógica para reagir com uma certa alergia a termos isolados, mesmo que estes últimos, por uso de uma figura de linguagem, por exemplo, queiram dizer o contrário do seu sentido original.
Você pode dizer que "isto pode ser considerado como abuso", mas eu tenho certeza que isto vai ser interpretado como "você é abusador". Essa é a famosa generalização do ato para a personalidade. A estigmatização. E isso vem do fato que o interlocutor apenas leu uma palavra e já deduziu o resto do texto, ao invés de interpretá-lo.
Enfim, eu sei que é chover no molhado, mas é ridículo que verdades fundamentais continuem sendo ignoradas enquanto buscamos salvação em algoritmos para problemas que só a base resolve. A solução para esse impasse é uma verdade que todos estamos carecas de saber, embora ela continue sendo tratada como uma revelação: a educação. E a educação crítica.